Neste ano, no Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, nossa dor coletiva é latente, e a urgência de mudança é aguda. Nos últimos doze meses, trabalhadores e trabalhadoras em transportes foram mortos em pistas de pouso, esmagados por cargas, atropelados em piquetes e pegos no fogo cruzado de guerras que não provocaram. Muitos outros sofreram danos que ainda passam despercebidos: o estresse, o esgotamento, o isolamento e o medo que tantos carregam sozinhos.
Representamos 16,6 milhões de trabalhadoras e trabalhadores em transportes em mais de 150 países. Honramos cada uma dessas pessoas.
A guerra e seu custo humano
Apenas em 2025, conflitos armados mataram mais de 240 mil pessoas ao redor do mundo — no Sudão, em Gaza, na Ucrânia, em Mianmar, na República Democrática do Congo e em outros contextos de mortes de civis em massa. Em 2026, o Oriente Médio tornou-se o epicentro de uma nova onda de devastação. Desde o início da guerra entre EUA/Israel e Irã, em 28 de fevereiro de 2026, mais de 3.600 pessoas foram mortas no Irã — mais de 1.700 delas civis. No Líbano, onde os ataques israelenses foram retomados em março de 2026, pelo menos 2.450 pessoas morreram e mais de 1 milhão de habitantes foram deslocados. Na Venezuela, um ataque dos Estados Unidos em janeiro resultou na morte de militares e civis, e o bloqueio agravou ainda mais as dificuldades de trabalhadoras e trabalhadores e de suas famílias.
Trabalhadoras e trabalhadores em transportes estão na linha de frente de todos os conflitos.
Desde o início da guerra no Irã, em fevereiro de 2026, cerca de 20 mil marítimos ficaram retidos a bordo de 2 mil embarcações no Golfo Pérsico. A Organização Marítima Internacional informa que pelo menos dez marítimos foram mortos em 21 ataques confirmados. As autoridades iranianas também relataram que 39 embarcações comerciais foram afundadas, 110 barcos de pesca foram destruídos e 20 marítimos foram mortos. A ITF recebeu quase 1.900 pedidos de assistência e repatriou 450 marítimos da região.
“Marítimos não são soldados”, enfatizou o secretário-geral da ITF, Stephen Cotton. “São trabalhadoras e trabalhadores, em grande parte oriundos do Sul Global, longe de casa, transportando as cargas do mundo em nome de todas as nossas economias. Não foi a gente do mar que iniciou esta guerra. Eles não podem encerrá-la. Mas estão sendo usados como peões.”
Trabalhadoras e trabalhadores da aviação em toda a região continuaram trabalhando sob pressão excepcional enquanto os aeroportos estavam sob ataque. Pilotos, comissários de bordo, controladores de tráfego aéreo e aeroviários estão mantendo serviços essenciais em meio ao fechamento de espaços aéreos e à ameaça constante de perigo.
No início deste mês, o Comitê Executivo da ITF exigiu o fim imediato das hostilidades, a proteção integral dos civis que são trabalhadoras e trabalhadores em transportes e medidas concretas de empregadores e governos para protegê-los. A ITF também se uniu a sindicatos globais que representam mais de 200 milhões de trabalhadores em todo o mundo na exigência de um cessar-fogo permanente e sustentável em todo o Oriente Médio.
O impacto letal dos conflitos regionais sobre trabalhadoras e trabalhadores em transportes não se limita ao Oriente Médio. Na África Ocidental, motoristas de caminhão foram apanhados no fogo cruzado da crescente crise de segurança na região do Sahel. Em 29 de janeiro de 2026, grupos armados emboscaram comboios de combustível ao longo do corredor Diboli–Kayes, no oeste do Mali, matando mais de 15 motoristas de caminhão-tanque — trabalhadores executados simplesmente por exercer sua função.
A ITF está ao lado da paz em todo lugar onde trabalhadoras e trabalhadores são forçados a pagar o preço de decisões tomadas por outros.
Saúde e segurança no trabalho: a dimensão da crise
De acordo com as estimativas globais mais recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), quase 3 milhões de trabalhadores morrem por causas relacionadas ao trabalho todo ano — e esse número está crescendo, não diminuindo. O setor de transportes é um dos mais perigosos para se trabalhar. E não são apenas os riscos físicos que matam. Por si só, as longas jornadas de trabalho são responsáveis por quase 750 mil mortes por ano no mundo, e os riscos psicossociais ainda são precariamente contabilizados, encobertos por uma cultura que manda trabalhadoras e trabalhadores se conformarem em vez de enfrentarem os riscos estruturais que os prejudicam.
Quando trabalhadoras e trabalhadores alertam e ninguém ouve
Em 18 de janeiro de 2026, dois trens de alta velocidade colidiram próximo a Adamuz, no sul da Espanha, matando 46 pessoas e ferindo 292 — o pior desastre ferroviário do país em mais de uma década. Um dos mortos foi o maquinista do trem da Renfe, de 28 anos. Dois dias depois, um maquinista em treinamento morreu quando um trem metropolitano de passageiros atingiu um muro desabado em Gelida, perto de Barcelona.
O que faz de Adamuz um caso emblemático para o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho não é apenas a dimensão da tragédia. Trabalhadoras e trabalhadores ferroviários vinham soando o alarme desde agosto de 2025, alertando a operadora de infraestrutura ferroviária ADIF sobre o desgaste grave nos próprios trilhos onde o acidente mais tarde ocorreu. Uma investigação confirmou posteriormente uma junta de trilho fraturada que vinha se deteriorando há algum tempo.
Após o acidente, os sindicatos ferroviários convocaram uma greve nacional. Organizações filiadas à ITF e à ETF, a CCOO e a UGT uniram-se a outros sindicatos para exigir mais trabalhadores de manutenção e maior investimento em infraestrutura. Ao final do primeiro dia, os sindicatos haviam conquistado um acordo histórico com o governo: € 1,8 bilhão em investimentos em manutenção ao longo de quatro anos, 3.650 novos postos de trabalho em todo o setor e um comitê conjunto de segurança que garante a trabalhadoras e trabalhadores voz real nas decisões sobre segurança.
Tragicamente, 46 pessoas morreram porque os alertas foram ignorados.
Quando a segurança falha, as consequências são sentidas por trabalhadoras e trabalhadores
Em 12 de junho de 2025, o voo AI171 da Air India caiu pouco após a decolagem em Ahmedabad, na Índia, matando 241 das 242 pessoas a bordo, entre elas os dois pilotos e todos os dez comissários de bordo. Foi o desastre aéreo mais mortal desta década. A dimensão da perda gerou uma onda de consternação em toda a comunidade de aviação global.
Em 22 de março de 2026, o comandante Antoine Forest e o copiloto Mackenzie Gunther foram mortos quando o jato da Air Canada Express colidiu com um caminhão de bombeiros na pista do Aeroporto de LaGuardia, em Nova York. Ambos eram membros da ALPA Canada e estavam no início da carreira.
Passageiros relataram que os pilotos frearam com força nos últimos segundos, protegendo todos a bordo. “Eu não estaria aqui se não fosse pela ação rápida do piloto”, disse um passageiro à imprensa.
“Nenhuma família deveria passar por isso", desabafou o presidente da ALPA Canadá, comandante Tim Perry, em uma cerimônia de homenagem aos pilotos. “Precisa ser uma promessa: quando um piloto vai trabalhar, precisa voltar vivo.”
A ITF está ao lado das famílias, dos sindicatos e dos trabalhadores e trabalhadoras da aviação abalados por essas tragédias.
Nos portos e no mar, mortes evitáveis persistem
Os portos são centros vitais da economia global. Também estão entre os locais de trabalho mais perigosos.
A Associação Internacional de Coordenação de Manuseio de Cargas (ICHCA) registra as mortes no trabalho relacionadas ao transporte de cargas em todo o mundo. O Painel de Riscos Graves de junho de 2025 contabiliza mais de 500 mortes em portos desde 2000, revelando um padrão persistente e evitável.
Todo ano, estima-se que 100 mil pescadores percam a vida naquela que é frequentemente chamada de a profissão mais perigosa do mundo, exercida longe de qualquer fiscalização, proteção ou responsabilização.
Uma pesquisa da ITF publicada este mês expôs graves abusos trabalhistas (violência, roubo de salários e trabalho forçado) em embarcações pesqueiras que atuam em áreas de pesca certificadas pelo Marine Stewardship Council (MSC).
Pescadores trabalham em isolamento, longe de portos e de proteção legal. Suas mortes não são tragédias inevitáveis. São o resultado de fiscalização deficiente e de um sistema que trata trabalhadoras e trabalhadores como descartáveis com demasiada frequência.
Risco psicossocial: a crise ainda oculta no trabalho
Este ano, a campanha do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho da Confederação Sindical Internacional (CSI) centra-se na crescente crise de riscos psicossociais no trabalho. Estresse relacionado ao trabalho, sobrecarga de tarefas, longas jornadas, insegurança no emprego, bullying, assédio e violência no trabalho estão matando trabalhadoras e trabalhadores. E tudo isso se soma aos riscos físicos mais conhecidos.
Para um número grande demais de trabalhadoras e trabalhadores em transportes, essa é a realidade cotidiana. Marítimos passam meses no mar, afastados de suas famílias. Trabalhadoras e trabalhadores em transportes urbanos enfrentam o agravamento da violência externa, incluindo a violência de gênero, e escalas que não se adaptam às necessidades de quem trabalha. Motoristas de caminhão e de ônibus enfrentam riscos significativos de segurança e saúde em decorrência da informalidade e da precariedade do setor. A falta de trabalhadores, as pressões concorrenciais e a ameaça iminente da automação estão provocando alta rotatividade e fadiga. Mulheres e jovens trabalhadores são particularmente expostos, frequentemente encontrando-se em funções precárias com o menor acesso ao suporte disponível.
A saúde mental não é uma falha individual. É o resultado sistêmico de como o trabalho é organizado, de como trabalhadores e trabalhadoras são valorizados e apoiados, e de se têm o poder de moldar suas próprias condições.
O relatório de pesquisa da ITF intitulado Serviço Público Essencial, Saúde do Trabalhador Essencial documentou iniciativas de saúde mental lideradas por sindicatos voltadas a jovens trabalhadores no transporte urbano em sete países, comprovando que proteger a saúde mental é um trabalho sindical fundamental.
O apelo à ação da CSI também é um apelo da ITF: reconhecer e aplicar a legislação sobre riscos psicossociais, realizar avaliações de risco adequadas, prevenir todos os tipos de assédio, inclusive o assédio moral, e regulamentar as jornadas excessivas.
Violência contra trabalhadoras e trabalhadores em transportes
A Convenção 190 da OIT sobre Violência e Assédio no Mundo do Trabalho estabelece o padrão global, mas a ratificação ainda avança de forma lenta demais e a implementação é desigual. Para trabalhadoras e trabalhadores em transportes, que enfrentam alguns dos maiores índices de violência externa de qualquer setor, a C190 deve ser ratificada, dotada de recursos e aplicada.
O custo humano dessa violência não é algo abstrato. Em 5 de janeiro de 2026, Alessandro Ambrosio, condutor da Trenitalia, de 34 anos, foi esfaqueado e morto no estacionamento de funcionários da estação de Bolonha após o término do turno. Menos de um mês depois, Serkan C., condutor da Deutsche Bahn, de 36 anos e pai de dois filhos, foi espancado até a morte em um trem na Alemanha após pedir a um passageiro que apresentasse um bilhete válido. Ambos estavam simplesmente fazendo seu trabalho. Ambos pagaram com a vida.
Lembremos dos mortos, lutemos pelos vivos
O comandante Antoine Forest e o copiloto Mackenzie Gunther, mortos em LaGuardia. O maquinista de 28 anos morto em Adamuz e o maquinista em treinamento morto dias depois em Gelida. Alessandro Ambrosio, esfaqueado e morto na estação de Bolonha. Serkan C., espancado até a morte em um trem na Alemanha. O membro de um sindicato coreano morto em um piquete. A gente do mar morta no Estreito de Ormuz. Os trabalhadores de terra mortos em aeroportos. Os portuários esmagados por cargas. Os pescadores perdidos no mar. Os controladores de tráfego aéreo que entraram em colapso em silêncio. Os motoristas de ônibus feridos e traumatizados pela violência durante o serviço. E os milhares de trabalhadores e trabalhadoras em transportes mortos em guerras e conflitos.
Não nos esqueceremos deles. E não vamos parar de lutar até que cada trabalhadora e cada trabalhador em transportes chegue em casa em segurança.
